Resultados da microscopia em amostras de urinas

A microscopia pode ser útil para diferenciar o polimorfismo eritrocitário em casos de lesão renal. Se a lesão for pós-renal os eritrócitos apresentam isomorfismo. Se a lesão for a nível renal aparece polimorfismo. Este fenómeno está relacionado com um desequilíbrio de cargas a nível membranar. Eritrócitos dismórficos são caracterizados por uma membrana celular externa irregular.

 

            

                                                                                                                                          Fig.  Eritrócitos eumórficos (à esquerda) e dismórficos (à direita) visíveis em sedimentos urinários

 Segundo Sutton (1990) citado por Thaller e Wang (1999) podemos estabelecer que um estado de hematúria microscópica é definido pela excreção de pelo menos três eritrócitos por campo, numa amostra de urina centrifugada.

 Em alguns casos, em urinas hipotónicas, podem aparecer eritrócitos que apresentam menor volume, têm espículas na membrana o que lhes confere um aspecto granuloso quando visualizados ao microscópio óptico. São designados eritrócitos crenados.

A detecção microscópica de eritrócitos na urina pode ser afectada por diversos factores. A obtenção da amostra através de catéter pode causar trauma uretral conduzindo a diversos graus de hematúria. O intervalo de tempo também pode influenciar o resultado do teste pois ocorre uma desintegração dos eritrócitos por manutenção da amostra à temperatura ambiente durante um longo período de tempo.

A presença de ácido úrico na urina é essencialmente proveniente da excreção de proteínas, especialmente da degradação de purinas livres (guanina, hipoxantina e xantina). Estas purinas têm origem alimentar, síntese endógena e catabolismo dos ácidos nucleicos. A uricúria aumenta após as refeições, os excessos alcoólicos e esforços físicos intensos.

Na urina, encontra-se o ácido úrico, na forma simples, pouco solúvel, e sob a forma de urato, muito mais solúvel, numa proporção que depende do pH.

Os cristais de ácido úrico são característicos de urinas ácidas, uma vez que o pH do ácido úrico é aproximadamente 6, o que significa que se o pH da amostra ultrapassar este valor existe maior quantidade de uratos do que ácido úrico na amostra, acontecendo o inverso quando o valor de pH é inferior a 6. Estes cristais ocorrem sob várias formas geométricas, apresentando formas rômbicas ou piramidais, ou mesmo a forma de roseta ou outras formas irregulares. Podem apresentar cor amarela, amarelo-acastanhada ou serem incolores.

 

 

Embora o ácido úrico aumente em doentes com gota, a presença destes cristais na urina não é indicativa, na maioria das vezes, de situação patológica ou da presença de elevadas quantidades de ácido úrico no sangue. São solúveis em soluções alcalinas.

Os cristais de oxalato de cálcio são característicos de urinas ácidas e neutras. Apresentam grande variedade de tamanhos e formas, sobretudo sob a forma de octaedros incolores facilmente identificados devido à sua forma característica. Podem indicar doença renal crónica ou intoxicação com etilenoglicol ou metoxifluorano.

 

  Estes cristais compreendem 2 tipos diferentes: os fosfatos triplo, incolores, em forma de prisma de 3 ou 6 lados e ocasionalmente com forma mais rendilhada, espiculada.

  Inclui também uratos de amónio, de cor mais escura e formas arredondadas com vilosidades periféricas, aparecendo na urina pela formação de amoníaco proveniente da bexiga.

Os cristais de fosfato triplo são característicos de urinas alcalinas.

  Estes três tipos de cristais podem aparecer em pessoas saudáveis sendo muitas vezes designados por cristais normais.

 

 Forma atípica (“mola de roupa”)Fig  Cristais de fosfato triplo em sedimentos urinários

 

 Os cristais amorfos podem ser uratos ou fosfatos, os primeiros são característicos de urinas ácidas e os fosfatos são característicos de urinas alcalinas. Os cristais de urato amorfo precipitam em condições ligeiramente ácidas sob a forma de pequenas granulações amarelo-roseadas que se deposita e adere a fibras mucosas que possam estar presentes.

 A presença destes cristais que surgem frequentemente por refrigeração, é muitas vezes visível pelo aparecimento de uma cor rosada e podem dificultar a visualização do sedimento. Não se procede á alcalinização da amostra porque com o aumento do pH poderia ocorrer formação de NH4+ e consequente lise celular. Assim sendo procede-se ao aquecimento da amostra, idealmente em banho-maria.

  Os fosfatos amorfos aparecem nas urinas alcalinas apresentando-se como uma poeira amarelada ou acinzentada. Se a sua presença dificultar a observação do sedimento urinário, podem ser dissolvidos com ácido acético. Aparecem no sedimento de urinas alcalinas normais.

Podem ser encontrados na urina outros cristais não patológicos como os de carbonato de cálcio, magnésio ou amónio, presentes em urinas alcalinas.

  Os cristais de ácido hipúrico aparecem geralmente na urina após ingestão de alimentos com alto teor de ácido benzóico (vegetais e frutas). Ao microscópio óptico são visíveis sob a forma de agulhas ou estrelas incolores ou amarelo pálido.

A nível patológico podem aparecer cristais de cistina, tirosina, leucina e cristais de sulfamida. Os cristais de cistina são pouco frequentes e formam-se a pH ácido. São incolores e têm formas hexagonais planas, aparecendo na urina em casos de cistinúria e homocistinúria.

 Os cristais de tirosina são amarelados e aparecem sob a forma de finas agulhas incolores, por vezes agrupadas, surgindo nos casos de certos distúrbios metabólicos.

 Os cristais de leucina aparecem na urina de pessoas com doenças hepáticas graves. São amarelos com uma aparência gordurosa, forma esférica, com estrias radiais ou concentricas. Geralmente estes cristais aparecem conjuntamente com os cristais de tirosina.  

 Os cristais de sulfamida são muito raros e apresentam uma cor amarelo-acastanhada e formas assimétricas ou arredondadas.

Os cilindros são estruturas proteicas formadas no interior dos túbulos renais pela mucoproteina de Tamm-Horsfall. Estas estruturas podem aprisionar no seu interior diversas moléculas biológicas, adquirindo assim distintas designações. Desta forma podemos ter vários tipos: cilindros hialinos; cilindros granulares; cilindros epiteliais; cilindros leucocitários; cilindros eritrocitários; cilindros céreos. São de ocorrência rara no sedimento de uma pessoa saudável. Os que aparecem são hialinos e não contêm células. Possuem tamanho e forma variáveis, consoante o local de onde são oriundos. A presença de cilindros na urina indica quase sempre uma patologia renal.

Os cilindros hialinos têm uma formação exclusiva a nível renal, não possuindo um valor patológico tão definido. São por vezes difíceis de detectar por serem incolores, transparentes e homogéneos. São formados por uma mucoproteína que atravessa a membrana glomerular capilar. São os cilindros mais frequentes, surgindo após exercício físico, desidratação e consumo de diuréticos.

Os cilindros céreos apresentam uma estrutura semelhante aos anteriores. São no entanto, mais nítidos, dado o seu padrão de refracção da luz diferente. São relativamente grandes e com bordos irregulares. Observam-se em pacientes com oligúria, insuficiência ou obstrução renal, inflamação tubular ou degeneração celular do rim.

    Cilindro céreo

Os cilindros granulosos, cilindros de inclusão, são semi-transparentes com grânulos de diferentes dimensões com distribuição no cilindro variável. São comuns em situações de glomerulonefrite e a sua estrutura demonstra agregação de células na sua matriz. Aparecem também em casos de pielonefrite, infecções virais ou necrose renal. Os grânulos desaparecem da superfície por acidificação da urina, voltando a formar-se à medida que a urina se torna alcalina.

  

Fig  Cilindros granulosos

Os cilindros eritrocitários surgem da agregação de eritrócitos à matriz proteica. São formados no nefrónio e a sua presença indica a existência de lesões renais com derrame. São semitransparentes ou de cor amarela e sofrem degradação rápida.

Cilindros leucocitários resultam da integração de leucócitos na matriz hialina. Confirmam a origem renal de uma leucocitúria, sendo a sua ocorrência associada a infecções, pielonefrites e doenças glomerulares.

Os cilindros epiteliais referem-se à inclusão de células tubulares renais intactas ou necróticas e indicam situações de isquémia tubular ou doença viral. Posteriormente são degradados, originando cilindros granulosos ou céreos.

Além dos elementos já referidos  podem ainda aparecer outros elementos: bactérias, parasitas, espermatozóides, células epiteliais, leveduras e outros.

As células epiteliais não têm grande significado clínico com excepção das células epiteliais de origem tubular. São em tamanho, semelhantes a neutrófilos mas normalmente são maiores e apresentam um núcleo definido, redondo e grande. Nas urinas normais representam renovação celular, mas aparecem em número mais elevado em casos de necrose tubular aguda, danos isquémicos, glomerulonefrite ou rejeição de transplante.

No trabalho de rotina é apenas referida a sua abundância. Se necessário pode referir-se a predominância de um tipo de células, uma vez que isso pode estar relacionado com a origem da infecção.

6 thoughts on “Resultados da microscopia em amostras de urinas

  1. I’ve been browsing online more than 3 hours today, yet I never found any valuable article according with my search about weight loss methods only in your site I found all the info. It’s pretty worth enough for me. In my view, if all website owners and bloggers made good content as you did, the net will be much more useful than ever before. Thank you!…

  2. Gostei da definição e do resumo com um bom conteudo.
    Continue postando mais fotos dos elementos da urina são sempre muito interessante para nós profissionais termos variedades de imagens diferenciadas.

    GRATA.
    Muito obrigada.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

CommentLuv badge